Eu e meu bloco de notas


Eu e meu bloco de notas- Um E sobre tudo





Preso novamente ao pouco que se possa chamar de caminhos ou declínios, o meu eu ainda caminha sem rumo.

Hoje, caminhando por alguma rua deserta e sem prestar atenção em quem estava ali, cheguei finalmente à conclusão de que corações vazios doem.

Ainda esperando pelo pouco e sabendo mais do que o que se deve, recolhi a minha pequenez ao meu recanto inconformado com algumas inadequações;

Respostas  fáceis não costumam existir ou me agradar, e ainda que a mente tenha muita coisa guardada, o manifesto dos corações vazios da Bula ainda não parece ter chegado a mim.

Preciso admitir acima de tudo, que aguardar momentos para falar, passa a ser atormentador. E espero ainda algo que engula tudo, mas, que seja, em nome do amor.

Eu ainda estava preso na calma de uma cidade mais que pequena. E é mais que natural que a cidade pareça menor ainda na boca dos seus moradores. Ainda, preso diante da capacidade ínfima e descrente de escrever de forma torta, não hesitei em me sentar em uma calçada mais esburacada que um queijo suíço para anotar ao menos as primeiras palavras de tudo aquilo que passava como um flash em minha mente.

Condenado a converter pequenos fatos em grandes acontecimentos, peguei-me novamente realizando a triste mania de ignorar tudo em nome de um pensamento. Independentemente de onde estava. Ainda estava na calçada, anotando pequenos trechos desconexos de palavras curiosas.

Palavras que falavam delas mesmas. Como condenadas a vagar em um mundo circular, que assim como o planeta de origem, costuma girar, enfrentar tempestades e destruições em massa, para ter a honra eterna de parar no mesmo lugar.

Pensamentos passando entre eu e o meu bloco de notas, e não posso me negar a perguntar, se de fato não somos condenados a vagar e repetir a cada dia as mesmas coisas de forma tão enfadonha, que terminamos nos afogando a escrever.

Escrever o quê? O mesmo que qualquer escritor meia boca seria capaz de fazer. Escrever, o que se tem na cabeça. E condenar a escrita de forma que torne-se algo tão preso, inóspito e oculto, que só o seu egoísta autor venha a entender. Como mandar recados em sondas gigantes para um futuro distante, simplesmente para dizer a si mesmo. “Você já esteve aqui. E continua no mesmo lugar, se já não o tiver destruído”.

As páginas amarelas do meu bloco de notas ainda gritam. Gritam, que independente do espírito humano presente em mim, não destruí (apesar de todas as páginas arrancadas), nem ele, nem minha alma. E ele continua, todos os dias gritando.

- Você já esteve aqui! Você já esteve aqui! Você...

E sei, que em algum momento, sairei da rota. Fugirei para bem longe, de mim, e de tudo. Para sentir o ar novo e poluído de histórias anteriores e de viajantes distantes, que saíram da rota, e que se esqueceram do objetivo.

Se esqueceram, de ouvir todos os dias um "Fuja!" para experimentar novos ares.

Temo, embora espero, que os novos ares sejam cada vez mais limpos e menos desbravados. Com menos repetição, mas ainda assim, espero, no fim de tudo, não ter destruído o meu início. Para quando me cansar. Voltar destruído pela vida, exausto até o último fio de cabelo, marcado pelo mundo, mas honrado pela alma, lembrado, por quem deveria se lembrar, e novamente matar a saudade irresistível, de olhar qualquer página amarela, e ouvir novamente.


- Você -  já - esteve - aqui!